Fim da 6×1. E a produtividade?

José Pastore e André Portela. São, respectivamente, professor aposentado da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (USP); e professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV)
  • O Estado de S. Paulo.
  • 29 Jan 2026

Vivemos um tempo de narrativas sedutoras. Uma delas diz que, quando as pessoas trabalham menos horas, a sua produtividade aumenta. Estaria aí a grande justificativa da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) n.º 8/2025, da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), que propõe a redução da jornada de trabalho semanal de 44 horas para 36 horas, e muda o regime de escala 6×1 para 4 dias de trabalho e 3 de descanso, com o mesmo salário.

Trabalhar menos tem seu mérito, mas é viável? E a produtividade?

Há várias décadas que a produtividade do trabalho cresce a uma taxa irrisória de 0,4% a 0,6% ao ano. Nos últimos 20 anos, ficou estagnada. Em 2024, cresceu apenas 0,1%.

Num regime de 36 horas semanais, cálculos realistas indicam que, para as empresas e a economia manterem o desempenho atual, a produtividade do trabalho terá de passar para um novo patamar de 6,7% de forma imediata e permanente.

Irrealista. Nesse campo, nada ocorre de repente. A produtividade depende de fatores de evolução lenta: a melhoria da qualificação dos trabalhadores, o aperfeiçoamento da administração das empresas, a sua modernização tecnológica, etc. Nada disso surgirá da mera redução das horas trabalhadas.

Será que a referida estagnação da produtividade afeta todas as empresas? É claro que não. Muitas são altamente produtivas porque operam com colaboradores bem qualificados, sob administração moderna e ancoradas em tecnologias que maximizam resultados. Assim se dá também com certos ramos e setores. Nessas condições, é viável trabalhar menos. E isso já ocorre. A jornada média praticada no Brasil é de 38,4 horas por semana.

Mas esse resultado é alcançado por meio de negociações coletivas realizadas entre empregados e empregadores. Elas levam em conta as peculiaridades das empresas, trabalhadores, ramos e setores da economia do País. Essa prática já é garantida pela Constituição de 1988, que permite acertar jornadas semanais abaixo de 44 horas (art. 7.º, inciso XIII).

Portanto, o problema da PEC n.º 8/2025 e de outras do mesmo tipo é o de promover uma redução de jornada de modo impositivo, sem levar em conta as diferenças apontadas.

Conclusão: somos a favor de qualquer redução de jornada de trabalho, desde que negociada entre as partes e com base na realidade das empresas, dos trabalhadores, dos ramos e setores. Assim é no mundo inteiro. O problema da PEC é o de promover uma redução de jornada de modo impositivo

 

Tendencias para 2026

Quais as tendencias você acredita que devem afetar mais força o setor de consultoria e desenvolvimento humano e organizacional e porquê?

O setor de consultoria e DHO está passando por transformações profundas impulsionadas por tecnologia, mudanças culturais, novas expectativas de trabalho e pela velocidade crescente das mudanças nos negócios. As tendências mais fortes são impulsionadas por três grandes movimentos:

  1. Aceleração tecnológica e transformação digital
  2. Novas dinâmicas sociais e de trabalho
  3. Busca por culturas saudáveis, ágeis e orientadas a propósito

Vou listar 8 tendências que mais devem moldar o setor nos próximos anos e as razões por trás disso.

1. Inteligência Artificial e Automação Cognitiva

Por que impacta: a IA está redesenhando todas as funções organizacionais, e isso impõe duas frentes ao DHO:

  • Ajudar líderes e equipes a integrar, compreender e trabalhar com IA incluindo mudanças de processo e cultura.
  • Utilizar IA dentro da própria consultoria, para diagnósticos mais rápidos, desenvolvimento de trilhas personalizadas, análises de clima, mapeamento de competências etc.

Além disso, o uso de IA permite intervenções mais precisas, escaláveis e com maior mensuração de resultados, algo cada vez mais exigido pelos clientes.

2. Aprendizagem Contínua e Personalizada (Lifelong Learning 4.0)

Por que impacta: com a obsolescência acelerada de habilidades, empresas precisam de ecossistemas de aprendizagem contínua, combinando microlearning, plataformas digitais, trilhas adaptativas e experiências híbridas. As consultorias capazes de personalizar o desenvolvimento por persona, função e nível de maturidade terão vantagem competitiva. O foco deixa de ser treinamentos isolados e passa a ser journeys de desenvolvimento integradas e sustentáveis.

 

3. Aumento da Complexidade Adaptativa e das Competências Humanas Essenciais

Por que impacta: os problemas mais complexos exigem profissionais com competências como:

  • pensamento crítico
  • adaptabilidade
  • colaboração
  • criatividade
  • inteligência emocional
  • tomada de decisão em ambientes ambíguos

Como a tecnologia automatiza tarefas, o valor humano migra para habilidades socioemocionais e cognitivas superiores. O DHO passa a ser cada vez mais estratégico, apoiando líderes a navegar ambiguidade, engajar times híbridos e fomentar culturas de aprendizado e confiança.

4. Trabalho Híbrido, Distribuído e Multigeracional:

Por que impacta: as mudanças no modelo de trabalho trazem novos desafios organizacionais:

  • gestão de performance a distância
  • comunicação em múltiplos canais
  • construção de cultura sem presença física constante
  • conciliação entre expectativas de gerações diferentes
  • bem-estar e prevenção de burnout

Consultorias precisaram ampliar seu repertório para oferecer soluções práticas de cultura, liderança e engajamento em ambientes descentralizados.

5. Cultura Organizacional como Diferencial Competitivo:

Por que impacta: com mercados voláteis, produtos mais facilmente copiáveis e tecnologia acessível, cultura virou estratégia. Empresas buscam consultorias para:

  • fortalecer propósito
  • criar ambientes inclusivos
  • revisar modelos de liderança
  • aumentar accountability
  • integrar fusões e aquisições
  • redesenhar processos e símbolos culturais

O papel do consultor passa a ser de tradutor cultural e facilitador de mudanças profundas e mensuráveis.

6. Demandas crescentes por métricas e ROI de DHO

Por que impacta: clientes estão cada vez menos dispostos a investir em programas que não demonstrem impacto claro. Isso leva as consultorias a integrar:

  • analytics
  • indicadores comportamentais
  • métricas de aprendizagem aplicadas ao trabalho
  • dashboards de evolução

DHO deixa de ser “intangível” e passa a ser formadora, acumuladora e informadora de dados (data-informed).

7. Saúde Mental, Bem-Estar e Sustentabilidade Humana

Por que impacta: a exaustão organizacional se tornou global. Empresas buscam soluções para:

  • reduzir burnout
  • melhorar clima e segurança psicológica
  • aumentar pertencimento e engajamento
  • promover equilíbrio e resiliência

Consultorias que conseguirem integrar performance + bem-estar terão grande demanda.

8. Transição ESG e Lideranças Humanizadas

Por que impacta: a pressão por responsabilidade social, diversidade, ética e sustentabilidade exige uma nova mentalidade de gestão. O DHO é essencial para:

  • formar líderes com visão sistêmica
  • apoiar agendas de diversidade e inclusão
  • alinhar cultura à estratégia ESG

Essa tendência se fortalece por exigência de investidores, talentos e sociedade.

O apagão de mão de obra

O Estado de S. Paulo. · 30 out. 2025 · B9
José Pastore

Já houve tempo em que os mutirões com vagas de emprego tinham filas quilométricas de trabalhadores que ali passavam a noite para conquistar um emprego. Hoje, há mais vagas do que candidatos.

O “apagão de mão de obra” já compromete o funcionamento e a expansão de muitos negócios nos setores do comércio, serviços, indústrias, agro e construção – o que conspira contra o crescimento das empresas e da economia brasileira.

O Brasil sempre teve carência de pessoal qualificado. Mas, atualmente, a carência é também por pessoal não qualificado, mesmo mediante a oferta de salários superiores à média do que é fixado nos acordos e convenções coletivas de trabalho. Fala-se muito na concorrência dos programas de transferência de renda, em especial, do Bolsa Família. De fato. É preocupante saber que em 13 Estados, o consumo é mantido mais pelos recursos assistenciais do que pelos salários dos trabalhadores.

Isso ocorre com mais frequência com os trabalhadores de salários mais baixos e que combinam vários benefícios assistenciais. No conjunto, eles geram mais renda do que obteriam trabalhando. Nas faixas dos salários mais altos, perdura a crônica falta de pessoal qualificado para atender.

Vários fatores se conjugam para formar uma verdadeira ‘tempestade perfeita’ de falta de mão de obra às necessidades de empresas que se sofisticam tecnológica e administrativamente. Nesse campo, tem crescido a prática de uma verdadeira “pirataria” em que uma empresa seduz os empregados de outra ao oferecer melhor salário e bons benefícios. Ou seja, não se pode atribuir toda a falta de mão de obra à concorrência dos programas assistenciais. As causas são múltiplas. Vários fatores se conjugam para formar uma verdadeira “tempestade perfeita” de falta de mão de obra. Dentre eles, está a forte redução da taxa de fecundidade das últimas décadas, que está diminuindo a proporção de jovens que podem trabalhar. Essa mudança veio para ficar.

Conta também a inclinação das pessoas que desejam trabalhar de forma autônoma e sem as amarras do emprego convencional. Essa hipótese tem respaldo na disparada do número de empreendedores individuais (MEIs). A prática do trabalho remoto durante a pandemia reforçou o anseio por liberdade e independência.

Há também outro fator. A falta de mão de obra tem sido agravada pela explosão do consumo derivado da farra fiscal. Mas, essa é uma força que deve desaparecer. Afinal, toda artificialidade tem vida curta.