Tendencias para 2026

Quais as tendencias você acredita que devem afetar mais força o setor de consultoria e desenvolvimento humano e organizacional e porquê?

O setor de consultoria e DHO está passando por transformações profundas impulsionadas por tecnologia, mudanças culturais, novas expectativas de trabalho e pela velocidade crescente das mudanças nos negócios. As tendências mais fortes são impulsionadas por três grandes movimentos:

  1. Aceleração tecnológica e transformação digital
  2. Novas dinâmicas sociais e de trabalho
  3. Busca por culturas saudáveis, ágeis e orientadas a propósito

Vou listar 8 tendências que mais devem moldar o setor nos próximos anos e as razões por trás disso.

1. Inteligência Artificial e Automação Cognitiva

Por que impacta: a IA está redesenhando todas as funções organizacionais, e isso impõe duas frentes ao DHO:

  • Ajudar líderes e equipes a integrar, compreender e trabalhar com IA incluindo mudanças de processo e cultura.
  • Utilizar IA dentro da própria consultoria, para diagnósticos mais rápidos, desenvolvimento de trilhas personalizadas, análises de clima, mapeamento de competências etc.

Além disso, o uso de IA permite intervenções mais precisas, escaláveis e com maior mensuração de resultados, algo cada vez mais exigido pelos clientes.

2. Aprendizagem Contínua e Personalizada (Lifelong Learning 4.0)

Por que impacta: com a obsolescência acelerada de habilidades, empresas precisam de ecossistemas de aprendizagem contínua, combinando microlearning, plataformas digitais, trilhas adaptativas e experiências híbridas. As consultorias capazes de personalizar o desenvolvimento por persona, função e nível de maturidade terão vantagem competitiva. O foco deixa de ser treinamentos isolados e passa a ser journeys de desenvolvimento integradas e sustentáveis.

 

3. Aumento da Complexidade Adaptativa e das Competências Humanas Essenciais

Por que impacta: os problemas mais complexos exigem profissionais com competências como:

  • pensamento crítico
  • adaptabilidade
  • colaboração
  • criatividade
  • inteligência emocional
  • tomada de decisão em ambientes ambíguos

Como a tecnologia automatiza tarefas, o valor humano migra para habilidades socioemocionais e cognitivas superiores. O DHO passa a ser cada vez mais estratégico, apoiando líderes a navegar ambiguidade, engajar times híbridos e fomentar culturas de aprendizado e confiança.

4. Trabalho Híbrido, Distribuído e Multigeracional:

Por que impacta: as mudanças no modelo de trabalho trazem novos desafios organizacionais:

  • gestão de performance a distância
  • comunicação em múltiplos canais
  • construção de cultura sem presença física constante
  • conciliação entre expectativas de gerações diferentes
  • bem-estar e prevenção de burnout

Consultorias precisaram ampliar seu repertório para oferecer soluções práticas de cultura, liderança e engajamento em ambientes descentralizados.

5. Cultura Organizacional como Diferencial Competitivo:

Por que impacta: com mercados voláteis, produtos mais facilmente copiáveis e tecnologia acessível, cultura virou estratégia. Empresas buscam consultorias para:

  • fortalecer propósito
  • criar ambientes inclusivos
  • revisar modelos de liderança
  • aumentar accountability
  • integrar fusões e aquisições
  • redesenhar processos e símbolos culturais

O papel do consultor passa a ser de tradutor cultural e facilitador de mudanças profundas e mensuráveis.

6. Demandas crescentes por métricas e ROI de DHO

Por que impacta: clientes estão cada vez menos dispostos a investir em programas que não demonstrem impacto claro. Isso leva as consultorias a integrar:

  • analytics
  • indicadores comportamentais
  • métricas de aprendizagem aplicadas ao trabalho
  • dashboards de evolução

DHO deixa de ser “intangível” e passa a ser formadora, acumuladora e informadora de dados (data-informed).

7. Saúde Mental, Bem-Estar e Sustentabilidade Humana

Por que impacta: a exaustão organizacional se tornou global. Empresas buscam soluções para:

  • reduzir burnout
  • melhorar clima e segurança psicológica
  • aumentar pertencimento e engajamento
  • promover equilíbrio e resiliência

Consultorias que conseguirem integrar performance + bem-estar terão grande demanda.

8. Transição ESG e Lideranças Humanizadas

Por que impacta: a pressão por responsabilidade social, diversidade, ética e sustentabilidade exige uma nova mentalidade de gestão. O DHO é essencial para:

  • formar líderes com visão sistêmica
  • apoiar agendas de diversidade e inclusão
  • alinhar cultura à estratégia ESG

Essa tendência se fortalece por exigência de investidores, talentos e sociedade.

O apagão de mão de obra

O Estado de S. Paulo. · 30 out. 2025 · B9
José Pastore

Já houve tempo em que os mutirões com vagas de emprego tinham filas quilométricas de trabalhadores que ali passavam a noite para conquistar um emprego. Hoje, há mais vagas do que candidatos.

O “apagão de mão de obra” já compromete o funcionamento e a expansão de muitos negócios nos setores do comércio, serviços, indústrias, agro e construção – o que conspira contra o crescimento das empresas e da economia brasileira.

O Brasil sempre teve carência de pessoal qualificado. Mas, atualmente, a carência é também por pessoal não qualificado, mesmo mediante a oferta de salários superiores à média do que é fixado nos acordos e convenções coletivas de trabalho. Fala-se muito na concorrência dos programas de transferência de renda, em especial, do Bolsa Família. De fato. É preocupante saber que em 13 Estados, o consumo é mantido mais pelos recursos assistenciais do que pelos salários dos trabalhadores.

Isso ocorre com mais frequência com os trabalhadores de salários mais baixos e que combinam vários benefícios assistenciais. No conjunto, eles geram mais renda do que obteriam trabalhando. Nas faixas dos salários mais altos, perdura a crônica falta de pessoal qualificado para atender.

Vários fatores se conjugam para formar uma verdadeira ‘tempestade perfeita’ de falta de mão de obra às necessidades de empresas que se sofisticam tecnológica e administrativamente. Nesse campo, tem crescido a prática de uma verdadeira “pirataria” em que uma empresa seduz os empregados de outra ao oferecer melhor salário e bons benefícios. Ou seja, não se pode atribuir toda a falta de mão de obra à concorrência dos programas assistenciais. As causas são múltiplas. Vários fatores se conjugam para formar uma verdadeira “tempestade perfeita” de falta de mão de obra. Dentre eles, está a forte redução da taxa de fecundidade das últimas décadas, que está diminuindo a proporção de jovens que podem trabalhar. Essa mudança veio para ficar.

Conta também a inclinação das pessoas que desejam trabalhar de forma autônoma e sem as amarras do emprego convencional. Essa hipótese tem respaldo na disparada do número de empreendedores individuais (MEIs). A prática do trabalho remoto durante a pandemia reforçou o anseio por liberdade e independência.

Há também outro fator. A falta de mão de obra tem sido agravada pela explosão do consumo derivado da farra fiscal. Mas, essa é uma força que deve desaparecer. Afinal, toda artificialidade tem vida curta.

Educação de má qualidade inibe crescimento da produtividade do Brasil

Trabalhador brasileiro tem hoje cerca de um quarto da produtividade de um americano, segundo o Ibre/FGV

  • O Estado de S. Paulo.
  • 19 Feb 2024
  • LUIZ GUILHERME GERBELLI

Os números da produtividade do trabalhador brasileiro revelam como o cenário do País é preocupante. Quando comparado com um americano, a produtividade brasileira é praticamente a mesma da observada nos anos 1950.

Em 2022, no último dado disponível, a produtividade do brasileiro equivalia a 22,3% da registrada por um americano, de acordo com dados compilados pelo Ibre/FGV. Em 1950, essa relação era de 20,9%. No melhor momento, chegou a 36,7% em 1980.

“O nosso trabalhador médio tem cerca de um quarto de produtividade de um trabalhador americano. Esse é o problema”, afirma Silvia Matos, economista do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

“Ele não consegue gerar o mesmo retorno de um trabalhador de um país desenvolvido.”

Sem o aumento da produtividade, o crescimento econômico acaba ressaltando as distorções econômicas do País, como inflação.

“Para aumentar a produtividade, há necessidade de inovação tecnológica, capital humano e estoque de capital. E essas coisas não estão indo bem nos últimos anos”, diz Naercio Menezes, professor do Insper e coordenador da Cátedra Ruth Cardoso.

 

EDUCAÇÃO DE MÁ QUALIDADE.

O que ajuda a explicar essa baixa produtividade é o desempenho ruim do País nas avaliações educacionais, apesar dos avanços obtidos nos anos de escolaridade da população nas últimas décadas.

No último Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), o Brasil até subiu algumas colocações, mas seguiu nas últimas posições entre 81 nações avaliadas. Em Matemática, o Brasil ocupou a 65.ª posição na edição 2022. Em Ciências, ficou na 61.ª colocação. Por fim, em leitura, o País ocupou o 52.º lugar.

“O desempenho do Pisa não mudou, principalmente, entre os alunos mais pobres”, afirma Menezes. “As escolas não estão preparando os alunos para questões mais elaboradas.”

Uma reportagem publicada recentemente pelo Estadão ajuda a dimensionar o tamanho da desigualdade na educação brasileira. Num recorte entre os alunos mais ricos que estudam em escolas particulares, a nota desse grupo de estudantes colocaria o País na quinta colocação em leitura, bem acima da classificação geral do País.

“E difícil ter crescimento de produtividade só com uma elite. O Brasil tem uma elite superbem-educada e que estuda nas melhores escolas do País. Mas isso não é suficiente para você ter um país com inovações”, afirma Menezes.

CARÊNCIA DE INVESTIMENTO.

Para tonar o cenário ainda mais desafiador, nos últimos anos o País tem sofrido para elevar os investimentos – não só em infraestrutura, mas também em inovação, tão necessária na nova economia.

Considerada um dos vetores para a expansão do PIB potencial, a taxa de investimento como proporção do PIB do Brasil tem rodado próximo de 18%, abaixo dos 20%, um patamar observado em países vizinhos, como Chile, México e Colômbia.

“Um dos motivos que fazem com que a gente cresça pouco é que investimos pouco”, afirma Silvia, do Ibre. “O País tem uma carência enorme de infraestrutura. E isso não se resolve de uma hora para outra.”

Em infraestrutura, uma série de dificuldades inibe a melhora do cenário – como juros altos, escassez de recursos, e pouca previsibilidade nas regras de contratos.

“O País avançou pouco na questão de segurança jurídica”, diz Alessandra Ribeiro, economista e sócia da Tendências. “De repente, vem uma decisão judicial do além que suspende pagamento de pedágio, por exemplo.”

MEDIDAS NECESSÁRIAS. A boa notícia, na avaliação dos economistas, é que o Brasil pode crescer mais se adotar as medidas necessárias e endereçar essas questões. A reforma tributária – discutida há décadas – deve ajudar a aliviar o cenário dos investimentos no médio e longo prazos.

“Superando essas limitações, a gente pode crescer mais”, afirma Silvia Matos. “Mas é um caminho que demanda reformas, inovação, capital humano e investimento.” •

País tem uma carência enorme na área de infraestrutura, que não se resolve rapidamente