Quando descobri que era um péssimo líder

Sou gerente de pessoas há 26 anos. Com raras exceções, desde 1997 que me reporto ao presidente das empresas onde trabalhei. Portanto, tenho quilometragem rodada, deu para encher um caminhão de coisas erradas que fiz ao longo desse tempo. São erros que reconheci com o passar dos anos, que me deram novos rumos e me ajudaram a melhorar como pessoa e profissional, com mais consciência e equilíbrio. Pelo menos, acredito nisso.
Lembro-me de que quando assumi a posição de diretor, pela primeira vez, pensei algo assim: “estou indo para uma posição importante, vou precisar ser o cara que mais sabe sobre as coisas que acontecem na minha área de responsabilidade, tenho de ter controle total sobre o que está acontecendo, as pessoas vão esperar que eu saiba de tudo e não posso falhar. Os meus funcionários precisam ver em mim alguém firme, que tenha resposta pra tudo e que demonstre saber claramente para onde estamos indo. O meu conhecimento precisa ser superior ao de todos os outros”.

                                                                                                               A cobrança de ter o conhecimento soberano e controle de tudo o que estava acontecendo foi um fardo carregado por mim durante muitos anos… muitos anos, mesmo!

 

Na minha cabeça de novo executivo, buscando autoafirmação, tinha de ter as respostas certas para quaisquer perguntas. Obviamente, tal pensamento era insano, porque acompanhar todos os campos de conhecimento e projetos que tocavam as minhas responsabilidades era algo impossível, e continua sendo. A minha área de atuação, marketing e comunicação, vem passando por grande transformação na última década. Manter- me atualizado e liderar a área tem sido um desafio enorme.
Com o passar dos anos, constatei que o meu gap de conhecimento só aumentava: cada vez apareciam mais coisas para aprender do que a minha capacidade de absorvê-las. Em função disso, a minha satisfação interna com a minha performance e capacidade só piorava. Eu estava a caminho de me tornar um profissional frustrado e, pior, um líder incapaz de inspirar e liderar pessoas. Algo estava errado na equação. A autocobrança e a falta de confiança estavam continuamente me matando e minando a minha autoestima. Sempre fui muito engajado, conseguindo desenvolver equipes com forte espírito de colaboração. Sentia que as pessoas acreditavam em mim e até hoje as pessoas que trabalharam comigo comentam sua apreciação pela minha liderança. O problema era eu comigo mesmo. Não me sentia realizado, achava que não fazia o bastante. Eu me sentia um líder a caminho do abismo. Com o tempo, a ficha caiu. Mas demorou, hein?
Em determinado momento, concluí que era impossível continuar daquela forma, que era inviável aprender tudo sobre tudo, que o meu modelo mental estava totalmente equivocado. Eu estava com o foco errado. O segredo não era saber e ter controle de tudo, mas sim me cercar de pessoas melhores do que eu, com mais potencial, conhecimento e habilidades do que eu. Isso significava ter um time com profissionais superpreparados, de excelente formação, experiências diversas, com habilidades comportamentais diferenciadas e, conceitualmente, habilitados para crescerem na carreira e ocuparem, inclusive, a minha posição de liderança. E não era só isso, mas também aceitar que meus pares, líderes de outras áreas, teriam conhecimento e habilidades superiores a mim, em diversas dimensões.
A ficha foi caindo com o tempo. Em vez de ser o “todo-poderoso”, o cara com o maior conhecimento, inquestionável e onipresente, eu precisava ser o construtor de equipes de alta performance e competência, ser um articulador respeitado dentro da empresa, sabendo trabalhar de forma colaborativa com meus pares, sendo generoso em desenvolver a equipe e dividindo o protagonismo em todas as oportunidades. Essa jornada de aprendizado me tomou tempo, pois significava mudar a direção da minha ambição, ter mais consciência para onde levar a minha carreira executiva e buscar eminência pessoal e profissional por outros meios.
Alcançar esse estágio mental trouxe mais certeza da minha jornada, para onde eu queria ir. Deu mais paz de espírito e diminuiu a ansiedade. Escolhi algumas áreas de conhecimento onde deveria realmente aumentar a minha proficiência e eminência, onde eu deveria “meter a cara” e manter foco e dedicação. Já outras áreas eu tratei de me garantir com o time que trabalhava comigo. É assim até hoje, onde procuro trabalhar com profissionais muito melhores e mais competentes do que eu, onde não tenho barreira para perguntar qualquer coisa, muitas vezes ao dia — e posso falar “não sei” com a boca cheia.
Gosto de trabalhar com equipes de perfil muito variado: pessoas superexperientes e novatas, com formações diversas, conservadoras e arrojadas, que possam trazer um balanço na perspectiva de time.
O tempo me fez descobrir que ser um gestor competente não é concentrar o conhecimento e controle, mas sim distribuí-lo, de forma coordenada, dando autonomia e poder para quem precisa, soltando a organização, compartilhando a liderança e sendo um humilde aprendiz o tempo todo. Isso significa dividir o palco com mais pessoas, saber ir para os bastidores na hora correta, sem receio nem melindres. Esse despojamento de não estar nos holofotes se aprende com o tempo. No início, me preocupei com uma possível perda de visibilidade executiva, mas depois descobri que isso era muito salutar, pois mostrava uma liderança que dava espaço para os outros e que construía equipes autossuficientes, com alta performance e liderança.
Descobri que as novas gerações são muitos melhores do que a minha, que nessa relação sou mais aluno do que professor. Passei a perguntar mais do que responder, a ouvir quando às vezes esperam que eu fale e a ficar quieto quando não tenho o que falar. Passei a ser seletivo nos assuntos onde realmente eu desejava ter profundidade e domínio. Isso exigiu abrir mão de ser o dominador para ser dominado.

Aprendi a falar “não sei” para o chefe, sem sofrer.

O papel da liderança nas organizações mudou muito nos últimos anos, e continua mudando. Se espelhar nos seus líderes anteriores pode ser legal como fonte de inspiração e aprendizado, mas talvez não como exemplo a ser seguido. As organizações precisam de uma liderança diferente do passado recente. Mas isso é tema para outra reflexão.
Hoje eu estou mais calmo como líder, menos exigente comigo mesmo e mais feliz como profissional, com mais certeza das minhas virtudes e deficiências. Esse estado de consciência me deu mais tranquilidade, permitiu descobrir que o meu sucesso como líder está na minha capacidade de entregar o melhor da equipe, e ser uma engrenagem relevante no motor da empresa. Parei de pensar prioritariamente em mim e passei a pensar sempre na organização como um todo, como se fosse uma única entidade.
Levou tempo, mas cheguei lá.

Mauro Segura

Diretor de Marketing da IBM Brasil

 

Engajamento – baixa produtividade dos funcionários & Recrutamento

A sua empresa tem uma correta percepção do quanto se perde de dinheiro por conta da baixa produtividade de funcionários não engajados em suas funções?

As cifras são altas. Estima-se que este custo chegue a US$ 550 bilhões nos Estados Unidos, considerando a perda causada por funcionários insatisfeitos ou infelizes no trabalho. E apenas 30% dos funcionários americanos estão plenamente comprometidos e, consequentemente, são mais produtivos no trabalho. Esta é apenas mais uma constatação das recentes mudanças na forma como empresas e colaboradores se relacionam e como estas afetam diretamente a economia.
Estudo recente da IBM também coloca o engajamento como preocupação comum entre executivos das empresas entrevistadas. O material aponta que a tecnologia pode ajudar a reverter este cenário de uma forma inovadora: tratando o funcionário como cliente fiel. Afinal nós – clientes – já estamos acostumados a ver empresas buscarem nossa fidelização com estratégias de personalização, conhecendo por meio de mapeamento de comportamento os nossos hábitos, gostos, desejos e estilos e com estas informações, se antecipando para oferecer seus produtos ou serviços de forma mais assertiva.
Esse posicionamento já é um novo padrão, e cada vez mais queremos o mesmo de nossos empregadores. Ou seja, o desafio para o RH será replicar, ou até criar, técnicas inovadoras de engajamento, como aquelas já em uso no mercado de consumo com seus próprios funcionários. A tecnologia definitivamente entra como base para potencializar este engajamento, por ter capacidade de trabalhar a enorme quantidade de dados gerados por cada funcionário, mesmo que de forma não estruturada.
Acompanhar como cada indivíduo responde ao meio em que está inserido, como ele interage com os diversos programas da empresa, como ele recebe feedback ou se prepara com conceitos teóricos, o que ele pesquisa, gosta, e deseja em termos de carreira. Aprimorar esse conhecimento dos seus funcionários dá mais informação sobre um espectro ainda pouco explorado entre empresas para tomada de decisões com informações de dados gerados pelo próprio empregado. Isso muda a forma de gestão de algo tradicionalmente baseado em intuição ou ferramentas pontuais para uma forma concreta, muito mais holística e baseada em insights. Por exemplo, hoje, o processo de recrutamento para a maioria das empresas ainda é dependente de encontrar alguém que tenha perfil para uma determinada posição. Para isso, cada empresa estrutura sua dinâmica de seleção para chegar a alguns poucos candidatos no final deste funil.
Uma possível evolução inclui ampliar todo o mecanismo para que ele mostre o candidato por inteiro, considerando inclusive seus valores e preferências pessoais e como estes combinam com os valores e necessidades de cada empresa. Ou seja, isto exige um processo seletivo mais baseado na exploração, gerando diversos dados isolados que podem ser combinados com uso da tecnologia para traçar um perfil de funcionário que não só atende a vaga, porém tem grande chance de engajar com toda atividade da empresa logo de início.
É uma chance para buscar futuros profissionais produtivos no momento zero. Importante reforçar que não existe apenas uma ou outra iniciativa que irá resultar em maior engajamento da força de trabalho. Da mesma forma que não será apenas uma ou outra ação que garantirá a compra e fidelização de um cliente.
O engajamento depende de um conjunto de ações estruturadas que possibilitem mais dados convertidos em informações e insights para maior entendimento sobre os colaboradores. Conhecendo melhor seus funcionários, as empresas têm mais chances de ter as pessoas certas nas funções corretas e assim ajudá-los a traçar planos de carreira, motivá-los e, principalmente, engajá-los de forma natural. A relação entre uma empresa e um colaborador torna-se algo menos baseado em combinação de necessidades e características e muito mais uma troca na qual ambos são beneficiados.
A tecnologia já amadureceu suficientemente para lidar com essa massa de dados e transformá-los em informações inteligentes e, assim, posicionar a área de recursos humanos como facilitadora de funcionários satisfeitos e engajados, como clientes leais e feliz.

Terceirização e Desinformação

José Pastore * jose pastore

Estadão – 30/03/2017

Tenho visto nas redes sociais artistas e outros formadores de opinião dizendo que a nova lei da terceirização vai eliminar o 13.º salário, as férias, o seguro-desemprego, as verbas rescisórias, a licença à gestante e vários outros direitos assegurados pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
Isso é mentira. Os que leram o texto sabem que, além de manter todos os direitos atuais, a nova lei estende aos trabalhadores terceirizados proteções importantes tais como a obrigatoriedade de a empresa contratante assegurar as condições de segurança, higiene e salubridade dos empregados da contratada e prover a eles os serviços de atendimento médico, ambulatorial e de refeição existentes nas suas dependências.
Vi, também, nas redes sociais que a nova lei deixa de proteger os trabalhadores pelo fato de a empresa contratante ser responsável subsidiariamente pelos direitos trabalhistas e previdenciários dos empregados da empresa contratada. Foi importante manter essa regra (que está na Súmula 331 do Tribunal Superior do Trabalho), pois a responsabilidade subsidiária tem grande alcance social: ela garante uma dupla proteção aos trabalhadores ao tornar contratante e contratada como corresponsáveis pelo cumprimento das leis trabalhistas durante a execução d o contrato. A terceirização é uma relação de parceria e, como tal, deve incluir obrigações para os dois lados. Aliás, nas ações judiciais dos dias atuais, os juízes costumam intimar contratante e contratada para responderem pelo que é devido ao reclamante. Os que veiculam essas falsas informações prestam um abominável desserviço à população. Ao distorcerem os fatos, eles levam as pessoas a acreditar no que não existe.
A desinformação é disseminada também com apoio em sofismas ardilosos. Um deles diz que os empregados das empresas contratadas ganham 30% menos do que os empregados das contratantes. Isso é falso. As pesquisas sérias mostram que, quando se comparam empregados na mesma profissão, as diferenças salariais são irrisórias e, muitas vezes, invertidas: os empregados das contratadas ganham mais que os das contratantes, como é o caso de vigilantes, seguranças e pessoal de limpeza (ver estudos de Hélio Zylberstajn, da USP, e Roberto Ellery, da FGV).
Outro sofisma malicioso sugere que empregados terceirizados sofrem mais acidentes do que os permanentes, desconsiderando que isso decorre do fato de os primeiros trabalharem em atividades mais perigosas. Não se podem comparar, por exemplo, as atividades dos funcionários da administração com as dos trabalhadores que reparam as linhas de força nas empresas de eletricidade. O diferencial de acidentes decorre da diferença das atividades, e não da terceirização.
Enfim, a lei foi votada na Câmara e no Senado. É hora de afastar as ideologias dos dois lados. Iludem-se os que veem na nova lei o potencial para gerar uma imensidão de empregos. Nenhuma lei tem essa força. Se isso fosse possível, não existiria desemprego no mundo. Empregos dependem de investimentos e de crescimento econômico. Chegou a hora, também, de afastar as falsidades pregadas pelos vendedores de mentiras.
Estou acompanhando com muita atenção o projeto de lei encaminhado ao Parlamento da Alemanha pela primeira-ministra Ângela Merkel que pretende responsabilizar os veículos das redes sociais pela veracidade das informações divulgadas. Pesadas multas serão aplicadas aos órgãos que veicularem mentiras que desorientam o público. Respeito e defendo a liberdade de expressão da mesma forma que respeito e defendo o direito de ser bem informado.
*PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, PRESIDENTE DO CONSELHO DE EMPREGO E RELAÇÕES DO TRABALHO DA FECOMERCIO-SP, É MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS.